"Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava, pr’eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo. Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo. Deixa a luz do quarto acesa, a porta entreaberta, o lençol amarrotado mesmo que vazio. Deixa a toalha na mesa e a comida pronta, só na minha voz não mexa, eu mesmo silencio. Deixa o coração falar o que eu calei um dia, deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo. Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia, deixa tudo como está e se puder, sem medo. Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço, deixa e quando não voltar eu finjo que não importa. Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito pra dizer te ver ir fechando atrás da porta. Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso. Deixa o meu olhar doente pousado na mesa, deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso. Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa, deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo. Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande, deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo. Se o adeus demora, a dor no coração se expande. Deixa o disco na vitrola pr’eu pensar que é festa, deixa a gaveta trancada pr’eu não ver tua ausência. Deixa a minha insanidade é tudo que me resta, deixa eu por à prova toda minha resistência. Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro, deixa eu contar que era farsa minha voz tranquila. Deixa pendurada a calça de brim desbotado, que como esse nosso amor ao menor vento oscila. Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa. Deixa um último recado na casa vizinha, deixa de sofisma e vamos ao que interessa. Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha, deixa tudo que eu não disse mas você sabia. Deixa o que você calou e eu tanto precisava, deixa o que era inexistente e eu pensei que havia." ▼
Oswaldo Montenegro. (via
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"Enganara-me. Te ofereci lágrimas e tu mostraste a beleza das cachoeiras, a imensidão do oceano, a solenidade dos rios. Quis fazer de minhas minguadas gotículas, um segundo dilúvio. Encarnei sorrisos e tu viera com as máscaras tristes de um teatro mudo. Silenciei-me, como vítima e réu confesso da arte. Pus em tuas mãos a minha dor e tu disseste que não era nada se comparada com a melancolia dos poemas desertos. Tornei-me compositor de rimas e exalei sofrimento em forma de dilúvio e máscaras circunspectas. Assobiei para ti respingos da alma e tu me fizera acreditar que alma só tinha quem amasse. Fizera de mim um amante, um louco, um passivo. Busquei em ti soluções para que jamais me tornasse aquilo que tu me transformaste ao longo do tempo e da paixão larvária e inofensiva em que me vi apodrecido. Enriqueceu-me de sentimento, quando tudo o que me prometera fora belos olhos e uma boca ácida. E o maior engano foi querer enganar a mim mesmo, que não engano nem o mais ingênuo dos homens e a mais astuta das mulheres. Um tolo por confiar na traidora de prévio aviso. Se com toda a minha loucura ainda for capaz de balbuciar algumas palavras, eu te falo num agora já passado que amor não acontece entre um homem e uma mulher. Amor acontece entre verdade e mentira, coração e trapaça, livro e carapaça. Amor também acontece a ferro e fogo. Tu feriu-me com a espada que eu quis derreter, tu lançou o perfume dos pântanos em frascos bonitos para que eu pensasse que eram rosas. O esquecimento levou-me a decadência. Esqueci que não sei chorar, sorrir ou sofrer. Esquecer levou-me a renascer, e renascer levou-me a cavar o meu próprio túmulo. Hoje, renascido, humilhado, horrorizado e injuriado… Eu te perdoo. Eu te perdoo, traidora inescrupulosa. E o perdão só veio porque me ensinaste a amar." ▼
Cinzentos (via
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